É um daqueles casos que constrange e faz até o maior defensor da democratização do futebol corar. O Itabuna, vice-campeão baiano sub-20, e portanto representante legítimo do estado, participa da Copa São Paulo de Futebol Júnior 2011 só com seu nome e uniforme. O treinador, a comissão técnica e quase todos os jogadores são do Marília-MA, equipe que não conseguiu se classificar para a Copinha e que usou desse "jeitinho" para dar visibilidade a seus atletas.
O caso do Itabuna/Marília acontece justamente no momento em que a Federação Paulista de Futebol procura cercar mais a ação dos empresários e dos times de aluguel no maior torneio de base do país, obrigando-os a prestar contas, pagar fundo de garantia e recolher impostos. Ainda assim, dribles como o do Itabuna sempre serão possíveis. Ruim para o futebol, pior para os jogadores.
A princípio a parceria das duas equipes nordestinas previa a participação de jogadores dos dois times, como uma espécie de combinado. No entanto, a comissão técnica elegida foi a do Marília, que já havia participado da Copinha 2010 e que tem o comando do treinador Evandro Bráz Guimarães. A princípio o Itabuna mandou dez jogadores para treinarem em Imperatriz, no Maranhão, mas a história ganhou traços de drama quando cinco meninos baianos foram dispensados e se viram sem dinheiro e sem apoio de qualquer um dos clubes para voltarem à Bahia.
O impasse foi resolvido logo, mas não deixou de ganhar má repercussão na imprensa. Segundo o vice de futebol do Itabuna, Luís Santana, faltou comunicação da direção do Marília com o presidente do clube baiano, Ricardo Xavier. De toda a maneira, a equipe que está em Limeira lutando pela classificação para a segunda fase da Copinha deverá ter uma quantidade ínfima de jogadores do Itabuna, provavelmente menos do que os cinco que treinaram em solo maranhense.
Mas a história fica pior. Não bastasse ser desportivamente desprezível, há também fortes suspeitas de que o clube baiano tenha "vendido" sua vaga na Taça São Paulo. De acordo com fontes próximas da parceria, o Itabuna teria recebido por volta de R$ 80 mil para abrir mão de ter seus próprios jogadores no torneio. Outros rumores falam no pagamento de R$ 25 mil. Já o presidente Ricardo Xavier nega as acusações e diz que a única contrapartida do Itabuna na parceria é participação nos lucros na hipótese de algum jogador ser contratado por outro clube após a competição.
Xavier também declarou que antes de fechar o acordo com o Marília - costurado pelo empresário e radialista Júnior Boleta - procurou outros times. Mas senão por dinheiro, por que o Itabuna gostaria de se "livrar" da chance de participar da Copinha? Para o presidente, o clube baiano não tem condições de disputar o torneio, uma vez que os atletas do time vice-campeão estadual são em sua maioria /90 e /91. Nada foi dito sobre a possibilidade de jogadores /92 e /93 pertencentes ao Itabuna participarem do torneio realizado em solo paulista.
Muitos culparão o inchaço da Copinha por essa aberração futebolística, mas não creio que a questão passe por aí. Evidentemente que 92 times é demais para qualquer competição que se proponha a uma fase de grupos, mas sou a favor de um grande número de times, das mais diversas regiões do país, no torneio. O Itabuna seria um representante legítimo da Bahia, afinal de contas foi vice-campeão de juniores, no entanto decidiu não exercer sua representatividade e aparentemente a Federação Baiana, e também a Paulista, se calaram.
Situações em que um time todo é emprestado para determinada competição não são exclusividade de torneios de base e continuarão inevitáveis. Não há como punir uma equipe simplesmente por contratar jogadores, comissão técnica e derivados, de forma que, por mais revoltante que seja, está tudo sendo feito dentro da legalidade. Por ora, resta apenas a denúncia e o sentimento de revolta de quem gosta do futebol jogado e sonha ludicamente com a democratização e desenvolvimento do esporte nas mais diversas praças.
Fonte: Site Olheiros



